No início dos anos 20, deu-se
início ao desmonte do Morro do Castelo, criando-se a esplanada que tomou seu nome. Nesta
grande área, quando do Centenário da Independência, instalou-se a Exposição
Internacional. Testemunho disto, resta-nos, apenas, a sede da Academia Brasileira de
Letras, onde funcionou o Pavilhão da França e o Pavilhão do Distrito Federal, no qual
está o Museu da Imagem e Som.
Passa por aqui Alfred Agache, deixando-nos um estudo de massa para a
esplanada. Nem tudo do projeto foi seguido, mas o espírito se faz sentir: quadras com
espaços públicos internos, (esses mesmos que viraram lamentáveis estacionamentos), as
avenidas largas com canteiros centrais, (uma delas, adulterada, agora, para a criação de
uma área de segurança do Consulado Americano) e a Av. Pres. Antonio Carlos, que, hoje,
não se entende porque é tão larga...
Assim, criava-se o cenário para a instalação da nova Capital Federal.
Diferente do que se fez depois, a Capital se mudava do Rio para o Rio. Nascia, na década
seguinte, o Rio do Estado Novo: os Ministérios ganham grandes prédios, que ocupavam
quarteirões inteiros, organizam-se concursos públicos para seus projetos, e nos anos 40,
já mudavam a cara da cidade, os ministérios de Educação e Saúde, da Fazenda, do
Trabalho,o Banco do Brasil, e a então SUDEP, ali nas barcas, o Instituto de Resseguros, o
Ministério da Aeronáutica. Ou seja, quase toda a administração federal estava de casa
nova, nas terras ganhas pelo desmonte do Morro...Próximas a isso tudo, importantes
embaixadas: França, Itália, Estados Unidos...
E a Administração Municipal? Pois que se tire outro morro, o de Santo
Antonio, que se introduzam novos eixos na Cidade e quem for olhar o projeto original de
Afonso Reidy, para a nova Esplanada, verá ali, as novas Prefeitura, Câmara, Catedral,
Biblioteca...
Podemos, para não alongar este texto, omitir a abertura da Av. Presidente
Vargas, apenas para evidenciar o que significou construir um novo Centro, no Castelo, para
que, nem 20 anos se passassem, e anunciassem nova mudança da Capital. Criou-se a idéia
de que o Rio era uma capital velha. Pelo contrário, era novíssimo. Naquele momento, este
fantástico conjunto de prédios tinha a metade da idade que Brasília conta atualmente!
É evidente que se deu início a um processo de ocupação do Centro do
Rio que, não só, não se consumou, como foi abortado. Há terrenos vagos, até hoje, na
Presidente Vargas e sua ocupação predial, verticalizada, em nada, condiz com a
vizinhança de sobrados do SAARA. Há regiões do centro que jamais se incorporaram a ele,
assim como a Esplanada de Santo Antonio, que só ficou pronta quando as canetas oficiais
já apontavam para o Planalto, perdeu, em definitivo,sua concepção original. As vias
cardinais jamais ultrapassaram os limites do antigo Morro e hoje ninguém entende porque a
rua da Lapa tem prédios tão recuados ou, na direção perpendicular, que o mesmo ocorra
na Av. Henrique Valadares.
Tudo isso, para finalizar, lembrando que prédios inteiros estão se
arruinando e nenhuma ação sistemática é feita no sentido de serem utilizados a favor
da cidade. Burocraticamente, continuam sendo tratados como prédios federais, que poderiam
vir a abrigar repartições estaduais ou municipais, ou passarem por reformas que os
tornem prédios comerciais contemporâneos, ou, caso necessário, tenham seus usos
radicalmente modificados. A guisa de sugestão, o prédio do Ministério da Fazenda daria
um excelente Centro de Convenções, de porte médio, que o Rio tanto reclama.
Num momento em que se verifica seriamente a existência de um espírito de
retorno ao Centro, com a fundação do IACEN, a reforma do Cine Odeon e a reciclagem do
prédio do Amarelinho, é hora do Governo Federal definitivamente parar de agir como
senhorio inescrupuloso e olhar o Rio, ao menos uma vez, com carinho. Mesmo que seja,
apenas, para ir embora. O mínimo que se espera é que a União, como ex-amante
civilizado, jogue a chave de casa por debaixo da porta...
Carlos Fernando Andrade
Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil- Dep.Rio de Janeiro