| JORNAL DO BRASIL, 2 DE AGOSTO DE 2001 |
Casas, ruas, mar, lagoas, montanhas, ah,
como eu amo esta cidade. Sair daqui é um sofrimento. Como é que as pessoas conseguem
respirar em outras cidades? Posso dizer, como Nelson Rodrigues com sua voz roufenha: ''Eu,
quando atravesso o túnel do Pasmado, já sinto uma saudade enorme do Brasil''. Do Rio,
velho Nelson, você nunca saiu daqui.
Mas me obrigaram a odiar uma parte da cidade - inúmeros edifícios construídos
depois dos anos 50, 60, 70, construções que passaram progressivamente da vergonha à
obscenidade, do estupro ao assassinato (dos moradores).
O Rio, como todo o Brasil, não tem vulcões, terremotos, nevascas, pavores de
gigantescas tsunami. E não precisa, com o que a canalha de seu governo e de sua
burocracia, seus cáftens consentidos, fazem com ele. Eu sempre me pergunto - onde é que
essa gente mora?
Lembrando tudo que se foi - nascido e vivido aqui, cresci com a cidade, fiz nela
uma longa viagem no tempo e no espaço - sofro a pungência de uma constatação (não é
saudosismo, é ira sagrada): nosso único estilo arquitetônico se chama estilo
especulação.
Essa especulação, feita por uma elite argentária por ignorância e grosseria,
cujo representante mais nobre é, hoje, Sérgio Naya, destruiu o morro do Castelo (onde a
cidade nasceu e que poderia ter sido 90% preservado), derrubou, por quizília do
General Geisel, o Palácio Monroe (antigo Senado), fechou a praia de Copacabana com o muro
da vergonha (anos depois o estado, nós, gastou bilhões pra fazer uma praia artificial),
e liberou o gabarito de Ipanema pra cada um construir como bem entende. A Barra, bem, da
Barra é melhor não falar.
Por isso acho muito pouco esse tombamento do Leblon, que agora se propõe.
Eu quero é tombamento mesmo - na marreta, na britadeira, na implosão -, de
crimes urbanísticos cometidos no passado. Imprescritíveis.
Escolho apenas dez das agressões (algumas até já indevidamente incorporadas)
feitas à paisagem e ao cidadão carioca e que devem ser ''corrigidas'' prioritariamente.
O leitor escolha as suas.
1° TORRE DO RIO SUL - unanimidade internacional em matéria de horror.
Tem a mais bela vista do Leblon. Deve ser implodido em dia de ponto facultativo. Quero ver
alguém ir trabalhar.
2° Hotel SHERATON - uma agressão, como tantas, importada diretamente dos
Estados Unidos. Fechando a praia, ferindo escarnecedoramente uma tradição da
legislação brasileira. Os Estados Unidos devem mandar um de seus inúmeros Una-Bombers
pra acabar com ele.
3° Edifício CANDIDO PORTINARI (30 andares, na altura da curva do
Calombo) - mesmo olhado de outro lado da lagoa, a mais um quilômetro, ainda assim corta a
linha da montanha. Receita - implosão discreta, sem choro nem vela.
4° Hotel OTHON - av. Atlântica. Um bloco maciço de impedimenta
que, entre outras coisas, nos impede ver a intimidade do vizinho Leonel Brizola. Deve ser
entregue a MST.
5° SPA, ESTAÇÃO DO CORPO, do Ricardo Amaral - há trinta anos, Ricardo,
que vive de sua simpatia com fins lucrativos, domina a lagoa com fins lucrativos, cobrando
até estacionamento, sem fins lucrativos. Sei que vai se incorporar aos nossos apelos e
derrubar aqueles muros - 250 metros - assim que ler este jornal. Se precisar de ajuda a
gente dá.
6° TIFFANY,S - monstruosidade na praça General Osório,
triplicando o gabarito da área. Fiz enorme campanha contra a construção, no início da
obra, apelei para os verdes, os amarelos, o cardeal, e todos me mandaram me queixar ao
bispo. O bispo, no caso, era Saturnino Brito, ''O homem que...'', bem, deixa pra lá.
7° MORADA DO SOL - em frente ao Canecão. Ali antes do horror, ficava a
clínica de Ivo Pitangui. Inúmeras tardes passamos jogando conversa fora lá de cima.
A paz de campo foi substituída por arranha-céus que justificam o nome. Se
houver incêndio num dos edifícios ninguém se salva. Caso para o Tribunal de Haia.
8° MORRO DA VIÚVA - Inúmeras pessoas nem sabem que atrás das
construções compactas existe um morro (o da Viúva). O mais exemplar como
abjeção é o Flamengo 200. De quem? Do Flamengo. Vejam se o Fluminense tem um edifício
assim. Vai ser uma trabalheira ''recuperar'' o morro.
9° CAIÇARAS - conheci o Caiçaras quando era um morrinho com uma
casa em cima, não dava nem pruma quadra de tênis. Cheguei a ser sócio. Saí quando os
hunos começaram a atacar. Se deixassem, o Caiçaras e o Piraquê acabavam
com a Lagoa.
Fazendo um mea-culpa os dois clubes poderiam começar a devolver o espelho
da Lagoa. Não precisa muito. Cem metros quadrados por ano. Em cinqüenta anos devolveriam
tudo. A cidade, antecipadamente, agradece.
10° IATE CLUBE - antes de tudo, havia aqui uma pequena murada onde o mar
batia. Me lembro de, algumas noites, eu criança ir ali pescar siri, de tarrafa. Na época
de sua construção o Iate fechou toda sua área com um muro. Houve uma grita,
rara, então. O Iate concedeu, fez aberturas no muro, permitindo a visão do mar.
Aos poucos tapou-se de novo com pequenas construções.
Em integração com os novos tempos, o Iate também poderia abrir a parte
do muro na avenida Pasteur, em frente à av. Venceslau Brás, dando ao cidadão que sai do
túnel em direção ao centro a primeira e impactante vista da enseada de Botafogo.
PS I. (11°)
Na foto, à esquerda do Pão-de-Açúcar, está, há mais de trinta anos, um
edifício botando acintosamente a cabeça alguns andares acima da linha da montanha. É
propriedade do Exército, o primeiro edifício a agredir dessa forma a paisagem. Lúcio
Costa protestou, na época. Era apenas um arquiteto contra a balística nacional. Não sei
por que não foi preso por desacato.
O Exército não poderia dar o primeiro admirável exemplo? Estamos - os dois
lados , o civil e o militar - precisando.
PS II - Desculpem, mas sou um Carioca de Algema. Eu, Carlinhos
Lyra, que musicou isso, também é. E, ora, ora!, a cantora Kay Lyra, filha de Carlinhos,
com seu conjunto musical do mesmo nome.
Marc Ferrez, 1906 Reprodução
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