JOÃO PESSOA |
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Centro fora de cena |
LÚCIO VILAR O Centro Histórico agoniza a céu aberto. Esta é a percepção e o sentimento generalizado dos empresários que investiram no local, assim como de artistas, políticos e agentes culturais que, de alguma forma, encontram-se envolvidos com o projeto de revitalização histórica e cultural da área. Promovida e lançada pelo poder público municipal, foi uma das mais promissoras e louváveis iniciativas institucionais já realizadas, acompanhada da promessa de seguir o exemplo de Recife e Salvador, cidades cujos projetos similares estão entre os mais bem sucedidos do país. O fôlego, entretanto, foi escasseando e todos os entrevistados pelo CORREIO sobre o assunto foram unânimes em apontar para o iminente estado de coma do Centro Histórico que padece sob o olhar indiferente da Prefeitura de João Pessoa. Em que pese tratar-se de tema recorrente na imprensa local nos últimos dois anos, os atuais sintomas da enfermidade do Centro Histórico alcançaram seu ponto mais crítico, neste momento, e podem ser listados a partir da incongruente abertura de uma oficina mecânica para automóveis na Praça Antenor Navarro. Inaugurada há cerca de um mês, ela destoa e enfeia o conjunto arquitetônico restaurado, abalando a própria proposta de revitalização que originou o projeto como um todo. Depois da oficina mecânica, não será difícil presenciarmos a volta do posto de gasolina e tudo o mais que havia por aqui, ironizou Eduardo Nogueira, proprietário do bar Engenho do Chopp, e que há dois anos e meio mantém a duras penas seu empreendimento comercial. Sobre o fato, Antônio Alcântara, presidente da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), disse não ser de sua alçada ou de sua responsabilidade a tramitação do alvará que liberou o seu funcionamento e que, portanto, nada tem nada a ver com o episódio. Camelôs e falta de eventosOs fatos sintomáticos não param por aí. A saída do local das respectivas sedes da secretaria de Turismo (Setur), já consumada, e da Funjope (Fundação Cultural de João Pessoa), prevista para dezembro, também influenciam no clima de esvaziamento do Centro Histórico, salientou Bob Zaccara, proprietário do Parahyba Café (em sociedade com Marcone Serpa). Foi citado também a proliferação de camelôs que invadiram a Praça Antenor Navarro nos últimos meses, um sério problema que incomoda os proprietários das casas noturnas ali instaladas que dizem não ser justo ter que dividir a clientela com os ambulantes. Em reunião ocorrida há cerca de quatro meses e que reuniu os donos de bares do Centro Histórico e a Prefeitura de João Pessoa, uma série de reivindicações foram elencadas, mas que não tiveram retorno até hoje. São coisas de soluções simples, como colocar um ponto de ônibus depois das 18h00 ao lado da praça, mais segurança, que não temos nenhuma normalmente, evitar o trânsito de caminhões, recolhimento do lixo etc., contou Eduardo Nogueira. O maior problema, entretanto, é a ausência de programação cultural do Centro na avaliação dos entrevistados. É necessário que exista uma programação permanente, constante, como acontece em Recife, Salvador e até Aracaju, que dá um baile na gente em termos de investimento turístico, sem isso o Centro Histórico não vai sobreviver, diz Zaccara. O argumento parece antigo, mas na opinião dele ainda serviu para abrir os olhos da Funjope que irá retirar o evento Centro em Cena (que não aconteceu esse ano), da Praça Antenor Navarro para a Pedro Américo. Esse é mais um absurdo que a Funjope vai cometer, o Centro em Cena nasceu aqui e deveria ser mantido em seu lugar de origem porque já mostrou que funciona nesta área, afirmou. O presidente da Funjope se defende dizendo que com a mudança da sede do órgão que dirige para o prédio dos Correios, ficará sem a infra-estrutura necessária pára realizar o Centro em Cena na Antenor Navarro de 16 a 26 de janeiro de 2002. Sobre as cobranças quanto a programação cultural, Alcântara atribuiu a situação a um certo comodismo predominante entre os proprietários dos bares do Centro Histórico.
O vereador Tavinho Santos, ex-secretário de Turismo da Prefeitura de João Pessoa, diz lamentar profundamente o que está acontecendo com o Centro Histórico, e concorda com os argumentos dos donos de bares do local. O que se fez foram restaurações pontuais, localizadas e o projeto de revitalização cultural não teve continuidade, analisou. O problema é que por aqui se conversa muito e se faz pouco, a situação é muito preocupante e por conta disso pretendo realizar uma sessão especial na Câmara logo depois do recesso, adiantou. O deputado estadual Ricardo Coutinho também reforçou o coro dos descontentes, reafirmando que tudo isso é reflexo do estado de abandono em que se encontra a cidade. Revitalização não se faz só pintando paredes, esse me parece ser o grande equívoco da experiência porque esquece da revitalização cultural, sem falar da ausência de participação da sociedade que nunca é chamada a discutir os projetos que lhe dizem respeito, destacou o parlamentar. O terceiro centro histórico mais importante do Brasil, o de João Pessoa, continua a atravessar dias de chumbo, disse o professor Ivaldo Gomes sobre a crise no setor. Para ele, além da lenta e quase parada restauração, agora batem em retirada os poucos projetos de ocupação e revitalização daquela artéria tão importante para o desenvolvimento cultural e turístico do nosso Estado. Falta de apoioSua avaliação é de que os empresários que investiram na Praça Antenor Navarro estão revendo seus investimentos em função da falta de apoio do poder público. E foi mais além: Em todos os estados onde os centros históricos estão sendo revitalizados, o poder público dá o exemplo e tem feito investimentos na restauração, revitalização e divulgação do seu patrimônio. Veja os casos de Olinda e Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Aracaju. Ele lembrou que a restauração é praticamente bancada com recursos do governo espanhol e os empresários que investiram na ocupação do Centro Histórico, principalmente na Praça Antenor Navarro, estão tendo que fechar seus estabelecimentos por falta de um planejamento e apoio dos poderes municipal e estadual. Parahyba Café, ícone da ocupação do Centro Histórico, já encerrou suas atividades no pavimento superior e agora é a vez do Engenho do Chopp encerrar suas atividades de vez, no emblemático 5 de agosto, dia do aniversário da cidade, arrematou. Depoimentos Rubens Barrocas, proprietário da Boate Intoca - A crise do Centro Histórico tem a ver com a falta de uma atenção maior dos poderes públicos e também de um certo preconceito que o próprio paraibano parece alimentar com o local. Talvez, isso seja o resultado da falta de divulgação do próprio Centro Histórico que só aparece esporadicamente na televisão e demais meios quando tem algum evento. É horrível que o Engenho do Chopp vá fechar, é muito desanimador e, com isso, o Centro Histórico vai morrer mais um pouco. Ivaldo Gomes, professor- Apoio governamental, sim senhor! E aqui não vai nenhuma solicitação esdrúxula. Nenhum pedido que seja eticamente incorreto. Aqui não há investimento, tudo é muito tímido, diferente de Recife, Salvador e até mesmo de Aracaju. O pior é que ninguém é consultado por aqui sobre coisa alguma e não há preparação para uma consciência turística, é só tirar pelos motoristas de táxi que chegam a recomendar que as pessoas não freqüentem o Centro Histórico porque é um lugar escuro... Luíza Helena, do espaço Mistura Filipéia - Aqui tem dia que fechamos as portas por absoluta falta de segurança, os eventos são escassos e não há divulgação; já pensamos esse ano mesmo em fechar, mas aí voltamos atrás e estamos tentando acreditar que alguma coisa irá mudar. Eduardo Nogueira, proprietário do Engenho do Chopp - Meu bar está à venda e no dia 3 de agosto fecho as portas depois de uma grande festa de encerramento que irei promover. A razão? Não consegui segurar o prejuízo mês a mês, se trata mesmo de necessidade financeira, de falta de capital. Aqui nunca houve compromisso real, não há continuidade, o que existe é a falta de projeto simplesmente porque não existe a visão de que isso aqui é um ponto turístico. Tenho, porém, a consciência e a certeza de que contribuí muito com o Centro Histórico.
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