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Urbanismo
de exclusão. A privatização da Curva da Jurema
Fabiano
Dias |
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O
termo urbanismo passa hoje por um dilema conceitual. Quando se pensa
em urbanizar uma área, no mínimo se propõe a melhoria das condições
de infra-estrutura do local, bem como dos seus usuários. No Brasil,
infelizmente o urbanismo vem se restringindo às atuações das
municipalidades em intervenções simplórias na criação de
pracinhas, pavimentação de ruas ou na infra-estrutura para
loteamentos, sendo que muitos são clandestinos e motivados pelas
invasões. Intervenções paliativas que na maioria dos casos em
nada acrescentam para a cidade e a solução de seus problemas
urbanos. Dar infra-estrutura a cidade é função básica de
qualquer intervenção urbana e urbanizar pressupõe dar qualidade
de vida à população, com um ambiente que atenda suas
necessidades, que seja agradável e atraente para o seu convívio.
Mas
há o outro lado da urbanização que trabalha em silêncio e não
é notícia nos meios de comunicação: o lado da exclusão, de
quando as intervenções se transformam em instrumentos de “renovação”
social, expulsando antigos moradores ou usuários que não se
enquadram nas novas exigências urbanas que se impõem no local.
Expulsões planejadas ou não, este é um fato esquecido em muitas
propostas bem intencionadas que não analisam as possíveis conseqüências
de suas intervenções.
Recentemente,
dois casos nos chamaram a atenção para este fato. Em um programa
de debates da televisão paga, discutiu-se a situação atual de um
importante bairro da cidade de Nova Iorque (isto antes dos atentados
de 11 de setembro), o Soho, região de grande ebulição cultural
americana. Em processo de degradação urbana até metade do século
XX, começa a ser – até por um processo natural – tomado por
artistas e intelectuais que transformaram a área em um dos mais
profícuos centros culturais dos Estados Unidos através de
galerias, ateliês, bibliotecas, lojas, bares, restaurantes, exposições,
gente famosa, etc. Poucos foram os antigos moradores que resistiram
à invasão cultural que modificou esta área. Por uma ironia do
destino, esses mesmos artistas sofrem agora a pressão da especulação
imobiliária que redescobriu a região como um grande investimento
comercial voltado para o setor empresarial e de negócios.
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A Curva da Jurema: área de lazer pública para uma população sem
muitas opções. Fonte: gazetaonline.globo.com/turismo.
Foto: Ricardo Medeiros
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Panorâmica da Praia da Curva da Jurema, em Vitória-ES, onde a
Prefeitura intenciona transformá-la em um centro gatronômico de nível
internacional. Foto: Kátia Ludolf. Fonte: www.vitoria.es.gov.br/turismo/praias/jurema.html |
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Em
terras capixabas, guardadas as devidas proporções, a Prefeitura
Municipal de Vitória intenciona privatizar a área da Curva da
Jurema, transformando seus quiosques em um centro gastronômico
internacional (com comidas típicas da Itália, França, Alemanha,
etc, etc.) servido de um grande estacionamento pago. Esta é uma área
praiana que na década de oitenta tinha como único atrativo – além
de sua praia de águas calmas – estar entre os bairros de classe média
alta da Ilha do Boi e Ilha do Frade. Após ter sido urbanizada na década
seguinte, surge como uma outra opção de praia na cidade de Vitória,
equipada com quiosques, banheiros, coqueiros, areia e mar. Com o
passar do tempo, torna-se um point de uma população de
classe média baixa elegendo-o como o local de seu divertimento no
final de semana. Cerveja, churrasco, pagode, samba e gente animada
se misturam à areia em contraste com os bairros nobres à sua
volta. Para uma população com poucas opções de lazer urbano, que
se presta a deslocar-se em ônibus cheios no calor de verão
capixaba para passar o dia na praia, a cidade de Vitória começa a
ficar cada vez menos ao seu favor. Invariavelmente, o centro gastronômico
proposto irá expulsar estes usuários para qualquer lugar, a não
ser que possam trocar o peixe frito com farofa por um prato de scargot,
acompanhado de um vinho de boa safra.
Já
há alguns anos, estamos presenciando na cidade de Vitória a
privatização de seus espaços públicos. O VITAL (o carnaval fora
de hora de Vitória) que exclui os “sem abadás”; a areia da
Praia de Camburi que é alugada para particulares montarem suas
tendas para os festejos da passagem de ano; o CentroShopping que
ocupará o espaço aéreo da Av. Beira-Mar no centro da cidade e
agora, a intenção de se criar este centro gastronômico são
exemplos de como o urbano pode ser usado em jogos de interesse
adversos à maioria da população.
Assistimos
passivos a este outro lado do urbanismo que nos assombra pela sua
velocidade de ação e de mudanças e os interesses que o movem. Então
cabe a nós, Arquitetos Urbanistas, o papel de críticos
principalmente pelo nosso envolvimento direto com esta disciplina
“Urbanismo” e a cidade que ela constrói.
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Fabiano
Dias é arquiteto-urbanista
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