A
partir do estudo para a revitalização da área
portuária do Rio de Janeiro – pesquisa
realizada no Laboratório de Pesquisas
Urbano-Arquitetônicas do Instituto Metodista
Bennett –, este artigo discute, analisa e
apresenta uma série de propostas para devolver à
cidade uma área há mais de vinte anos em estado
de degradação, na medida em que as atividades
portuárias se modernizaram.
A
Área Portuária do Rio de Janeiro, próxima ao
centro histórico e empresarial mantém ainda uma
tipologia peculiar nos sobrados, casarões, e nos
grandes galpões do início da industrialização,
apresentando-se como uma área degradada, em
lastimável estado de conservação. A necessidade
de encontrar uma solução urbanística que
integrasse essas áreas marginalizadas à vida útil
e econômica da cidade – promovendo seu
desenvolvimento sem expulsar os atuais
habitantes-, motivou o Projeto de Revitalização
que ora divulgamos.
Conciliando
teorias urbanas culturalistas e progressistas, o
projeto preserva o tecido antigo das áreas mais
elevadas e anteriores a sucessivos aterros,
destinando-o basicamente ao uso residencial com
algum comércio nos pavimentos térreos.
Paralelamente, tentou-se encontrar soluções viáveis
para as áreas aterradas no início do século XX
hoje em desuso pela modernização das atividades
portuárias. Como geralmente ocorre quando uma área
é utilizada por indústrias que se deterioram, a
área adjacente ao porto do Rio de Janeiro
transformou-se num bairro de passagem, fato
acentuado desde que, nos anos 70, uma via expressa
denominada Elevado Juscelino Kubitschek (avenida
Perimetral), eliminou a relação do tecido urbano
com a frente marítima. Ocorre, entretanto, que além
de apresentar uma paisagem privilegiada da baía
de Guanabara, a região oferece grandes
possibilidades de espaços públicos para a população
residente e para a cidade como um todo.
Cultura
e Habitação foi o binômio selecionado como
estratégia para os novos usos que deverão
substituir o antigo uso industrial dos galpões
abandonados, os vazios urbanos da rede ferroviária
e os inúmeros sobrados ainda recuperáveis,
muitos dos quais já invadidos. Existem estudos do
governo municipal para acelerar a ocupação de imóveis
ociosos com moradias nas áreas centrais do Rio de
Janeiro, inclusive na área portuária. Contudo,
é necessário transformar projetos em realidade
e, nesse sentido, fizemos propostas especificando
quais os imóveis a serem reciclados. Ao lado do
uso residencial, o uso cultural alavancará o
desenvolvimento da área, pois o previu-se a ocupação
dos antigos galpões fronteiros ao mar com
restaurantes, teatros, antiquários, centros de
design e moda, escolas técnicas e universidades.
Após
a investigação teórica sobre as possíveis
metodologias de intervenção, e a Análise
Crítica dos Planos Existentes Para a Área,
desde 1986, com base nos fundamentos de Jane
Jacobs, Kevin Lynch e Patrick Geddes, foram
efetuadas pesquisas que integram o diagnóstico
da área de estudo. Através de análises
comparativas entre projetos análogos em outras
cidades e as possibilidades de adequação à
realidade brasileira, foi elaborada uma proposta
para as áreas públicas e privadas desta extensa
região carioca em pleno processo de deterioração
e desuso. O estudo sobre as experiências já
implantadas permitiu verificar quais as características
de projeto e de gestão experimentadas com êxito
e sem a remoção da população moradora. Na
primeira etapa da pesquisa foram investigados
artigos e teses sobre as revitalizações dos
portos de Boston, Baltimore, South Seaport (Nova
York), Porto Madero (Buenos Aires), Expo’98
(Lisboa), Barcelona, Recife, Belém e Docklands
(Londres).
Identificou-se
a necessidade urgente de um plano de ação social
quanto à população sem recursos e uma total
conivência dos proprietários da área- nem
sempre moradores –, para que concordem com as
obras de restauro, reciclagem e renovação de
uso. Além disto, será fundamental que esses usos
sejam multifuncionais, ou seja, é insuficiente
transformar a área em centro de serviços sem que
haja também residências, pequenos comércios e
incentivo ao artesanato mais característico da
região. Nada mais ineficaz do que uma excelente
infra-estrutura de transportes, esgoto,
abastecimento de água, iluminação pública,
coleta de lixo, escolas e hospitais, se a cidade,
à noite, se torna fantasmagórica e vazia, mero
cenário para a exibição de um patrimônio
iluminado.
Áreas
mais antigas e elevadas: um reduto habitacional
No
que tange às áreas onde o tecido é homogêneo,
na parte alta e onde as antigas construções estão
ainda em grande parte vinculadas ao uso
residencial (figura 1), o projeto prevê a
reabilitação das habitações existentes através
de financiamentos especiais da Caixa Econômica
Federal e do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social. Entendemos que a identidade
cultural de um povo faz-se através da manutenção
de suas referências, sendo a arquitetura, a
morfologia urbana e as tradições partilhadas
pela população residente, os melhores
referenciais de um grupo social (2). Neste
sentido, os habitantes da área a ser revitalizada
devem permanecer em seus habitats,
e as áreas elevadas poderão preservar a
fisionomia que reflete a antiga ocupação.
(figura 2)
É
evidente que requalificando os espaços públicos,
como ruas, avenidas, largos e praças, melhorando
a infra-estrutura e iluminando locais de encontro
dos residentes, já se inicia um processo de
valorização da área. Mas o perigo maior ocorre
quando esta mesma valorização causa o aumento
imediato dos aluguéis e dos impostos, expulsando
a população residente, muitas vezes constituída
de famílias tradicionais de antigos trabalhadores
que acabam buscando abrigo na periferia ou nos
morros da cidade, para não arcar com os novos ônus
(3). Os planos de ações urbanísticas e sociais
devem ser acionados nos órgãos competentes, no
sentido de não expulsar a população, mas,
paralelamente, alcançar a reabilitação dos imóveis.
A
experiência portuguesa da reabilitação dos
bairros de Alfama, Mouraria, Bairro Alto e
Mandragoa – áreas de entorno do centro de
Lisboa –, bem como a recuperação da zona portuária
da cidade do Porto, podem ser citadas como exemplo
de eficácia na recuperação do patrimônio
edificado com a permanência da população
residente, através de mecanismos financeiros e
sociais atrelados às técnicas de restauro das
edificações e à requalificação dos espaços públicos
(4).
Já
o governo francês também tem conseguido
excelentes resultados em vários centros históricos,
graças à montagem de um esquema metodológico de
intervenções em Setores Preservados ou em Zonas
de Proteção do Patrimônio Arquitetural, Urbano
e Paisagístico (5). Os aspectos arquitetônicos,
de infraestrutura e de habitabilidade são
acompanhados por técnicos do governo, ou por este
contratados, mas a base do processo de reabilitação
é o sistema de financiamento concedido aos
proprietários que, através de organismos para a
melhoria da habitação, executam as obras,
valorizando seu patrimônio, porém obrigando-se a
manter os aluguéis ditos sociais, após as obras
de reabilitação.
O
antigo porto e a reabilitação dos galpões:
cultura e habitação
O
projeto incentiva a reabilitação e reestruturação
dos espaços sub-utilizados que se encontram hoje
em deterioração e, que, apesar de distantes
poucos metros do mar, não têm qualquer ligação
com a paisagem que se esconde atrás do extenso
viaduto e dos antigos armazéns desativados. Como
intervir urbanisticamente na região trazendo
benefícios econômicos não só para os
residentes do bairro, porém para toda a cidade
que se vê privada de uma infra-estrutura de lazer
e convívio, em especial nos bairros centrais e da
zona norte da cidade? Como equacionar a necessária
renovação correspondente à área do aterro com
questões viárias que abrangem espaços mais
amplos do que o universo municipal? Como minimizar
as difíceis questões fundiárias da área que já
não atende mais às necessidades do Porto do Rio?
Em
síntese, a filosofia do projeto foi revitalizar a
área portuária física, econômica e
socialmente, reintegrar a orla marítima ao tecido
urbano da área portuária, reabilitar e
re-estruturar espaços sub-utilizados em processo
de deterioração, reduzir o impacto do viaduto
existente, aumentar a consciência ecológica dos
habitantes e visitantes implantando parques e praças
que serão oferecidos à população, conforme
demanda constatada nos questionários aplicados.
A
metodologia do trabalho constou da análise de
todas as propostas já realizadas, da delimitação
de nova Área de Intervenção, de estudos
diversos sobre novas possibilidades de sistema viário
com meios de transportes integrados, da identificação
das áreas a renovar, das propostas preliminares e
da elaboração de novos cenários urbanos. Na
segunda etapa definiu-se o aproveitamento de áreas
e edificações a partir do perfil da população
residente e usuária, através de mecanismos que
permitirão uma verdadeira revitalização do espaço.
O
maior desafio foi estabelecer uma proposta viável
para retirar o tráfego da avenida Rodrigues
Alves, artéria de intensa circulação de ônibus
municipais e interestaduais que se dirigem à praça
Mauá, no centro da cidade. Foram criados binários
articulando-se os vários modais: ônibus, veículo
sobre trilhos e barcas. A rodoviária será
interligada com os demais terminais de transportes
da cidade. (figura 3) O elevado, reminiscência do
período desenvolvimentista, receberá um
tratamento adequado, sobre a pista e sob a mesma,
criando uma ambiência mais convidativa ao
transeunte. (figura 4)
A
área delimitada – estendendo-se do bairro da Saúde
ao Santo Cristo – apresenta muitos imóveis
abandonados, vazios urbanos e imóveis em ruína,
motivo pelo qual a equipe delimitou uma área mais
extensa para o projeto, extrapolando os limites da
Área de Especial Interesse Urbanístico.
Observou-se a urgente necessidade de intervenção
nos galpões sub-utilizados da companhia DOCAS e
da integração de um novo sistema viário,
retirando-se o tráfego pesado da Avenida
Rodrigues Alves e articulando-se os vários tipos
de transporte, inclusive o VLT – Veículo Leve
sobre Trilhos. Paralelamente, foram atribuídos
aos terrenos a renovar parâmetros urbanísticos
tais como: altura máxima das edificações, uso
do solo, taxa de ocupação. O projeto global
manteve a meta da transformação da área portuária
em local aprazível tanto para residências quanto
para comércios, indústrias leves e serviços,
bem servido de áreas verdes e de atrativos.
A
melhoria da infra-estrutura existente e a
requalificação dos espaços públicos aumentarão
os índices de qualidade de vida dos habitantes da
Saúde, Gamboa e do Santo Cristo, permitindo a
inserção de novos extratos sociais sem contudo
expulsar a população local. A expansão das
atividades econômicas, no sentido de auto
sustentabilidade da área. prevê geração de
empregos, em especial pela implantação de um pólo
de produção de softwares. Os galpões tombados e
reciclados acrescidos da grande extensão de áreas
verdes projetadas ao longo do antigo cais,
transformarão a área pela implantação de
atividades turísticas, alavancando o
desenvolvimento econômico da cidade, e permitindo
a visibilidade para o mar.
No
que tange à valorização físico-territorial do
ambiente, foram projetados: novos P.A.Ls , com o
redesenho de espaços públicos e implantação de
ciclovias. A reabilitação de conjuntos de valor
cultural, reciclados com usos habitacionais, serviços
ou comércio, nova proposta para a Praça Jornal
do Comércio, a implantação o Centro de Convenções,
a Marina e o Aquário Público, o redesenho da Praça
Mauá, novos complexos habitacionais (no antigo
terreno do Moinho Inglês, Enseada da Gamboa, Galpão
da Barão de Teffé), galpões 1, 2 3, 4, 5 e 6
com shoppings, cafés-concerto, casas de shows,
teatros e centros de artes. A interligação de
nodais inclui a reciclagem do Touring Club como
Estação Turística de Passageiros, a implantação
de Estação de catamarãs para Niterói, São Gonçalo
e ilha do Governador próximo à Rodoviária Novo
Rio além de um mono-rail interligando a Rodoviária
à Estação da Leopoldina. Completa a integração
a construção de duas linhas de VLT – Veículo
Leve sobre Trilhos, uma partindo da Rodoviária
Novo Rio em direção ao Aeroporto Santos Dumont e
outra em direção à Central do Brasil.
Notas
1
Este trabalho contou com a colaboração Ana
Gabriella Steinhäuser, Filippe Cabral e Sabrina
Guimarães e integra estudos do projeto de
pesquisa A
Área Portuária do Rio de Janeiro: uma proposta
de revitalização, desenvolvida com apoio da
FAPERJ e coordenada pela Professora arquiteta
Evelyn Furquim Werneck Lima com a participação
dos Professores arquitetos Luiz Neves e Mara de
Souza.
2
Cf. RONCAYOLO, Marcel. LA Ville et ses
Territoires. Gallimard,
1992
3
Cf. LIMA, Evelyn F.W. Avenida Presidente Vargas.
Rio de Janeiro: SMCTE/DGDI, 1990.
4
Encontro Luso-Brasileiro de Reabilitação Urbana.
Lisboa, 1995.
5
Paris-Projet – Centres Anciens, 1995