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O PLANO DIRETOR DA UFBA E O

PATRIMÔNIO CULTURAL DA BAHIA

Luiz Alberto Ribeiro Freire
Professor de História da Arte Brasileira da Escola de Belas Artes da UFBA
Localização das edificações da UFBA no Bairro do Canela, Salvador. Fonte: Diculgação. PRÓ- REITORIA DE PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO - PROPLAD/UFBA

 

No dia 29 de abril próximo passado foram apresentadas ao Conselho Universitário e sua assistência três propostas para o Plano Diretor da UFBA. A proposta mais leve sugere a venda das residências estudantis da Vitória e do Canela e a mais radical indica a venda de todo o patrimônio imobiliário da UFBA localizado no centro da cidade, inclusive o Palácio da Reitoria, em função da edificação completa do Campus de Ondina.

 

O projeto megalômano reflete o sonho atual da classe média, que associa qualidade acadêmica à infra-estrutura de “shopping Center”, padrão este realizado e difundido no nosso ambiente pelas Universidades Privadas, e comprovadamente falso no quesito qualidade de ensino.

 

Diante desta crônica, há algum tempo anunciada homeopaticamente por meio de um discurso persuasivo, que apresentava a intenção como fato já consumado, ou como inevitavelmente consumado, inevitavelmente necessário, é premente reflexões a respeito: 

Há muito, a UFBA é proprietária de um conjunto de imóveis cujo significado extrapola ao de edifícios implantados em áreas nobres, de alto valor imobiliário. Grande parte destas casas constitui um patrimônio cultural, que, em outra sociedade, estaria devidamente tombado pelo patrimônio estadual e federal. Como a sociedade é a brasileira, dominada pelos interesses mercadológicos de uma elite predadora que nunca aprendeu a dimensão de bem público, estes imóveis encontram-se até hoje sem processo de tombamento, vulneráveis, portanto, às intenções destrutivas como a que se apresenta com o Plano Diretor. Digo destrutivas, porque não haveria nenhuma outra alternativa para a residência estudantil do Canela, assim como para o Chalé e o prédio da Reitoria, também no Canela, que não a destruição pela construtora que efetuar a compra, pois estes imóveis são destituídos de terreno suficiente à volta, que permita uma edificação nova, de alto padrão, sem o sacrifício dos casarões existentes.

 

É oportuno lembrar, que estes marcos de arquitetura cuidadosa, de beleza artística e estranha nos padrões, diferente dos horrores arquitetônicos atuais, somente foram preservados até os dias de hoje porque pertencem a uma instituição pública, mais precisamente a uma Universidade Federal.

 

O funcionamento de determinadas unidades e órgão da UFBA como as Escolas de Música, Teatro, Belas Artes e Nutrição, nestes casarões, fazem o diferencial desta Universidade, dizem da tradição e de sua força cultural, que distam do padrão “shopping center”. Apresentam uma universidade entranhada na vida da cidade e não recolhida em um recanto qualquer escondido, uma universidade que e é distinguida pela sociedade, pelo cidadão que reconhece o valor simbólico destas sedes distribuídas por bairros próximos, por bairros repletos de equipamentos culturais, por bairros normais, onde a vida pulsa, diferente em tudo dos demais campi das universidades públicas brasileiras, que mais parecem acampamentos  e confinamentos.

 

Tudo isto faz muita diferença para o estudante residente que procede do interior, com pouco dinheiro para transporte e que precisa se locomover, não somente para ir às aulas, mas sobretudo, para complementar a sua educação nos teatros, nos cinemas, nas galerias, nos museu e prover o seu entretenimento.

 

É notório que os casarões estão esgotados na sua capacidade de acomodação, mas o problema não ficará resolvido com a venda, e sim com a expansão das unidades residenciais.

 

É sabido que os casarões estão em péssimo estado de conservação, mas isso não se resolverá com a venda deles, nem somente com a construção de edifícios novos. Isto se resolve com o resgate da manutenção física das universidades públicas brasileiras, sonegada desde o regime militar como forma de demolição literal de uma instituição que se negava a legitimar a tortura e o autoritarismo, ainda sonegada na atualidade pela falta de interesse político que opta pelo pagamento dos juros da dívida externa em detrimento dos investimentos em educação.

 

É oportuno lembrar que os edifícios construídos no século vinte para o funcionamento de faculdades da UFBA, também estão com problemas de falta de manutenção. É oportuno lembrar que o “CAMPUS SHOPPING”, se for construído, também se arruinará em poucos anos pela mesma razão. Portanto, o problema não é de descentralidade, nem de antigüidade dos imóveis, o problema é sobretudo de PASSIVIDIADE SOCIAL.

 

É preciso lembrar queinteresses enormes na venda destes casarões por parte das construtoras. É preciso lembrar que muitas destas construtoras pertencem a políticos baianos. É preciso lembrar que o “lobbypara a venda será imenso, haja vista a manchete e a matéria publicada no Jornal Correio da Bahia de 26/04/2005 sobre o estado de conservação das residências estudantis e sobre a decisão pela venda, em um momento em que sequer o assunto fora debatido.

 

Convocamos a comunidade da UFBA, a comunidade baiana e brasileira para livrar o patrimônio da UFBA da entrega ao capital privado, que destruirá estes imóveis, como vem fazendo com os casarões da Vitória, pois mesmo quando o projeto mantém a casa antiga como foyer, essa casa é privada do uso público e em alguns casos até mesmo privada da sua visualidade. Esta foi a situação ocorrida com o casarão número 2354, na Vitória, onde funcionava o Colégio Sophia Costa Pinto, encoberto atualmente por um portal descomunal que impede a leitura do belo edifício pelos transeuntes.

 

 

Luiz Alberto Ribeiro Freire
é Professor de História da Arte Brasileira da  Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia