| COLABORAÇAO DE : |
| Minha Cidade 019 |
| São Paulo SP Brasil |
Opacidade versus cidade
Ruth
Verde Zein |

Estação Júlio Prestes (Sala São
Paulo de Concertos) e a entrada do Concourse, à esquerda
|
Há uma premência, mesmo urgência, em se pensar e agir em prol da
recuperação urbana do centro de São Paulo, sobre a qual estamos todos de acordo. Mas
termina ai mesmo o consenso: na ânsia de agir acabam sendo promovidas atitudes que
resultam ser inadequadas, inconvenientes e desnecessárias ou, boas intenções nem
sempre fazem boas obras. Principalmente quando tudo continua a ser gerido, na coisa
pública, como se ela privativa fosse daqueles que momentaneamente detém o poder:
discricionariamente, sem debate, sem dar satisfações, sem admitir seja importante ouvir
opiniões alheias exceto para corroborar-se a si próprio. Muitas e variadas situações
se podem identificar, nesta sofrida cidade de São Paulo, e que se adequam ao acima dito.
Não pretendo discorrer sobre todas, apenas sobre uma delas.
Em busca de uma sede digna e
adequada para a OSESP Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
promoveu-se, por iniciativa do Governo do Estado, o estudo de vários ambientes existentes
para se tentar verificar se haveria algum que se mostrasse adequado à sua instalação.
Entre as possibilidades aventadas chegou-se a examinar também o "Concourse" da
Estação Júlio Prestes - apenas para verificar que não ali mesmo, mas sim no edifício
dos escritórios da Sorocabana e no inacabado pátio destinado ao inacabado Grande Hall de
espera de sua Estação é onde caberia, perfeitamente, uma adequada sala de concertos,
seus espaços de espera e circulação, aproveitando-se os andares superiores para
espaços administrativos e de uso interno da OSESP. Nasceu assim a Sala São Paulo de
Concertos. Me eximo de dar mais detalhes desse projeto e obra e me permito sugerir aos
possíveis interessados em aprofundar o tema a leitura, dentre a bibliografia existente,
do livro que junto com Anita Regina Di Marco organizamos sobre o tema, e onde exploramos
bastamente o assunto, sobre variados ângulos de abordagem. (1)
|

Foyer da Sala São Paulo de Concertos,
com vista para plataformas de embarque
|
| O tema de debate, aqui,
porém, é outro. Parece que ficou pairando no ar a idéia de se usar o espaço do
"Concourse" da Estação Júlio Prestes para algum fim cultural; e essa idéia
gerou conseqüências, ao ser ali recentemente instalado um espaço cênico para a
montagem dos "Os Lusíadas" transformado em peça teatral. Suponho que a
intenção foi boa: mas verifico que os resultados arquitetônicos e urbanos foram
funestos. Em primeiro lugar: o que é
um "Concourse"? Trata-se do espaço de acesso onde concorrem todas as pessoas
que acedem, neste caso, à estação ferroviária; lugar de inquietação e cruzamento, de
chegada e partida, de passagem. Quando a estação se prestava a longas esperas de trens
viajeiros, e não à correria dos trens de subúrbio, haviam outros ambientes para o estar
mais demorado perdida sua necessidade, os mesmos se transformaram na Sala São
Paulo de Concertos e suas dependências.
Mas o "Concourse" jamais havia
perdido seu uso original, visto que a Estação Júlio Prestes segue existindo, até prova
em contrário; ali as pessoas tomam o trem, por ali entram (ou entravam) e saem (ou
saíam). Trata-se de um espaço público: amplo, com pé direito alto, com materiais de
acabamento nobres, adequado à sua dignidade de coisa cidadã, ornamentado por belos
lustres e por interessantes vitrais. Dali se avista (ou se avistava) a Sala São Paulo,
pela transparência do vidro que separa ambos ambientes; dali se acede (ou se acedia) à
gare dos trens. Possivelmente os usuários mal se apercebessem, na sua pressa, da beleza
comedidamente grandiosa daquele espaço, mas certamente dela usufruíam, naturalmente. O
"Concourse" mantinha seu uso original, bem e adequadamente; o projeto da Sala
São Paulo compreendeu o quanto essa proximidade com o transporte devia ser devidamente
valorizada, e ressaltou, pela transparência, a continuidade visual daquele que é, de
fato, apenas um único conjunto edificado: o Complexo Júlio Prestes.
|

Foyer da Sala São Paulo de Concertos
|
Entretanto, ocorreu à Secretaria Estadual de Cultura que não bastava que
esse digno espaço fosse de uso de todos, e assim, providenciou para que ele fosse fechado
para uso de alguns. Deu-lhe um novo uso, "cultural". Para o lado da Sala São
Paulo foi providenciada uma opacidade negra; para o lado da gare, bastou-lhe a opacidade
avermelhada das simplórias tábuas de madeira usualmente empregadas na fatura de fôrmas
de concreto. A óbvia diferença na dignidade dos acabamentos diz muito sobre as
intenções e sobre as mentalidades que providenciaram esse fechamento, e o faz de maneira
cruel. O "Concourse" deixou de sê-lo afinal, para que querem as gentes
que apressadas por ali passavam, usufruir de espaço tão belo? Que lhes baste, pois, uma
entradinha lateral
Destinê-mo-lo, isso sim, a outras gentes mais gradas, a outro
uso mais "importante"
Terá sido essa a idéia, não dita, mas talvez
terrivelmente presente, a presidir essa transformação? Digamos que não, que estamos a
imaginar coisas. Estaremos?
Por outro lado, se tal
transformação fizesse perder o uso original, mas agregasse importante valor ao conjunto
edificado, jamais me abalaria a escrever estas linhas. Não perfilho o rol dos que crêem
que se deva manter o patrimônio edificado intacto, qual se fôra objeto estático e
imutável; a meu ver pode-se e deve-se dispor de edifícios de valor patrimonial e
histórico com certa flexibilidade e criatividade, sempre que isso seja feito com respeito
e inteligência. Evidentemente, variarão as opiniões sobre o que pode ou não ser feito
em cada caso concreto; mas, se assim é, ou melhor é debater aberta, condigna e
civilizadamente, as variadas posições possíveis. É o que parece convir numa sociedade
que se quer democrática; e nem por as intenções serem boas, não merecem que examinemos
mais detidamente seus frutos e como se sabe, é por eles que efetivamente se
avaliam a qualidade das intenções.
No caso do fechamento do
"Concourse" da Estação Júlio Prestes, pergunta-se: que valor foi agregado ao
conjunto, que justificasse a perda do uso original? Não vejo nenhum. Cortou-se
arbitrariamente o entendimento do complexo como uma unidade ainda mantido, mesmo
que simbolicamente, com a instalação da Sala São Paulo, que cuidou de não isolar-se,
mas abrir-se, transparentemente, à essa percepção. Os fechamentos são grosseiros e
deselegantes. O acesso só está minimamente sinalizado, e apenas pelos
"fundos", pois pode-se considerar a frente urbana como a Praça, e apenas se
acede ao novo "espaço cultural" pelo estacionamento posterior. E o que sucede
de interessante ali dentro? Uma peça teatral. Ora muito bem, mas para isso há outros e
melhores sítios por esta cidade. |
|

Croquis para passarelas no Foyer da
Sala São Paulo de Concertos, arquiteto Nelson Dupré
|
| Há planos para futuramente desativar a atividade ferroviária da
Estação Júlio Prestes. Sem entrar nos méritos técnicos dessa decisão, se e quando
ela vir a concretizar-se de fato, obviamente então se dará outro destino à gare. Mas
mesmo nesse caso, terá que ser compreendido que o "Concourse" seguirá sendo um
espaço preferencialmente público, aberto, de acesso e conexão entre a Sala São Paulo e
o que lhe esteja adjacente, seja estação ferroviária ou outra atividade qualquer. E, em
qualquer hipótese, tudo deverá ser feito com ponderação, planejamento, desígnio e
projeto; com autoria e responsabilidade; com senso crítico e respeito efetivo ao
patrimônio arquitetônico sem improvisos, sem atabalhoamentos. Mas, por enquanto,
o uso ferroviário prossegue existindo; por que então fazê-lo perder,
desnecessariamente, a dignidade?
A cidade, seu centro, precisa ser
revitalizada: estamos todos de acordo nisso. Mas é preciso, como em tudo na vida, ter bom
senso. O Complexo Júlio Prestes já foi palco de uma ausência: a não viabilização do
projeto de sua Praça que foi elaborado pelo Una Arquitetos uma solução de grande
simplicidade e beleza, além de pertinente sensibilidade para o que possa ser um espaço
público central. Agora, vê-se palco de uma presença dispensável, inadequadamente
alojada no "Concourse". A única esperança que nos resta é que esta última
intervenção, inoportuna, opaca, desinteressante, equivocada, e pior que tudo,
desnecessária, seja provisória e breve. E não deixe traços.
1
Sala São Paulo de Concertos / Revitalização da Estação Júlio Prestes; o projeto
arquitetônico. Di Marco, Anita Regina e Zein, Ruth Verde. São Paulo, Altermarket, 2000 |
| Ruth
Verde Zein é arquiteta, crítica e professora da FAU Mackenzie |
Minha Cidade 019
- abril 2001 |
|